UM EXEMPLO DE HIPER-REALIDADE APLICADO À SOCIEDADE: o filme Tropa de Elite e a ocupação das favelas no Rio de Janeiro

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Texto apresentado e publicado no II CIDS - Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística - Belém do Pará em setembro de 2012.   

Marlon Nunes Silva 

RESUMO: Discutiremos a relação entre a sequência cinematográfica Tropa de Elite e a consequente ocupação dos aglomerados no Rio de Janeiro. Nossa contextualização terá como direcionamento a análise fenomenológica de Baudrillard sobre o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, que trata da Guerra do Vietnã e demonstra como o cinema pode servir de plataforma ideológica em nome do suposto progresso. O Estado instala a guerra, que já não é mais somente física, mas midiatizada, hiper-realizada. O objetivo do artigo não é fazer uma exclusiva análise dos filmes, mas discutir os conceitos de hiper-realidade e simulação.

PALAVRAS-CHAVE: Hiper-realidade. Cinema. Tropa de Elite.

ABSTRACT: In this paper, we are going to discuss the relationship between the motion picture Tropa de Elite and the consequent occupation of the “favelas” of Rio de Janeiro. Our background statement will be led by the Baudrillard’s phenomenological analisys on the movie Apoclipse Now, directed by Francis Ford Coppola. The movie is about Vietnam War and shows how the cinema can be used as ideological platform in the name of the so-called progress. The Nation begins the war, wich is not only physical but also mediatic and hyperrealized. The purpose of this article is not only to do an analysis of the movies themselves, but to discuss the concepts of hyperreality and simulation.


KEY WORDS: Hyperreality. Cinema. Tropa de Elite.

1 INTRODUÇÃO

A primeira invasão ao Complexo do Alemão foi realizada em 28 de novembro de 2010 e a primeira sequência do filme “Tropa de Elite” lançada em 5 de outubro de 2007. O cerco aos traficantes estava preparado e constituído de vários homens e armamentos:

Desde sábado as forças policiais e Exército mantinham cerco ao Complexo do Alemão. Forças policiais e o Exército iniciaram na manhã deste domingo, por volta das 8h, a invasão ao Complexo do Alemão, onde estão centenas de traficantes. No total, são 800 soldados da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército, 300 agentes da Polícia Federal (PF) e 1,3 mil homens das polícias Militar e Civil mobilizados na para operação no Rio de Janeiro. Blindados do Exército e da Marinha e veículos do Batalhão de Operações Especiais da PM (BOPE) são utilizados na operação. A Polícia Militar estima que entre 500 e 600 traficantes estejam no Complexo do Alemão. Desde o sábado mais de 2 mil homens das forças de segurança já estavam prontos para invadir o complexo de favelas e mantinham um cerco posicionados nos 44 acessos do complexo. Na manhã deste domingo, uma hora antes do início da invasão, ocorreram tiroteios intensos na região e os homens estavam posicionados aguardando apenas a chegada dos helicópteros para iniciar as operações. (JORNAL ESTADÃO, 2012)

Ao mesmo tempo, o armamento midiático estava também preparado para mais uma batalha hiper-espetacular do que já estava pré-ordenado. A Disneylândia e Hollywood sobem os morros cariocas. As balas agora não são de festim, ferem não só quem está no fogo cruzado, mas também os cérebros parados em frente aos tele-jornais dramalhões. Helicópteros, carros, “motolinks”, câmeras de última geração. Tudo à disposição do desencobrimento-encobrimento. Tudo a favor da simulação:

Quando o real já não é o que era, a nostalgia assume todo o seu sentido. Sobrevalorização dos mitos de origem e dos signos de realidade. Sobrevalorização de verdade, de objectividade e de autenticidade de segundo plano. Escalada do verdadeiro, do vivido, ressurreição do figurativo onde o objecto e a substância desapareceram. Produção desenfreada de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento da produção material: assim surge a simulação na fase que nos interessa – uma estratégia de real, de neo-real, e de hiperreal, que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão. (BAUDRILLARD, 1991, p. 14)
    
A segunda sequência do filme foi lançada em 8 de outubro de 2010. O tema agora, além da luta contra o tráfico de drogas era também a disputa entre milícias formadas por policiais. E em 13 de novembro de 2010, mais um aglomerado foi invadido pelo aparato policial, a Rocinha. O que esses acontecimentos têm de provável ligação com a compilação cinematográfica “Tropa de Elite”? O limite entre o real e a imaginação, a Hiper-realidade .   

Segundo Baudrillard (1991), a Hiper-realidade é uma realidade construída e divulgada pelos meios de comunicação sem nenhuma piedade dos que inocentemente acreditam nas belas imagens produzidas e reproduzidas e ainda nas intermináveis hiper-propagandas. O objeto do artigo então é essa relação hiper-real. O sentido já não faz sentido ou apenas o sentido produtivista. O real e o irreal misturam-se. O sentido foi implodido. É aí que a memória apaga-se juntamente com o real e sobra apenas o irreal, o hiper-real. Sobram os pixels, os light-emitting diode, sobra a magia dos códigos binários.

O real é produzido a partir de células miniaturizadas, de matrizes e de memórias, de modelos de comando – e pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a partir daí. Já não tem de ser racional, pois já não se compara com nenhuma instância, ideal ou negativa. É apenas operacional. Na verdade, já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiperreal, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera. (BAUDRILLARD, 1991, p. 8)

Somos diferentes, temos nossas subjetividades, mas em cada uma delas antes agem os códigos binários das telas e cada um ao seu modo rende-se ao fascínio criado pela “Tela Total” (BAUDRILLARD, 2005).

Anulação da paisagem, desertificação do território, abolição das distinções reais. O que até agora se limita ao físico e ao geográfico, no caso de nossas auto-estradas, tomará toda a sua dimensão no campo eletrônico com a abolição das distâncias mentais e a compressão absoluta do tempo. Os curtos-circuitos (e a instauração desse cyberespaço planetário equivale a um imenso curto-circuito) geram eletro-choques. O que entrevemos não é mais somente o deserto do trabalho, o deserto do corpo que a informação engendrará em razão de sua própria concentração. (BAUDRILLARD, 2012)

Nosso ponto de vista sobre a hiper-realidade é que a criação de imagens retira do objeto todas as suas dimensões: o peso, o relevo, o cheiro, a profundidade, o tempo e, principalmente, o sentido. O fetiche da imagem digital reside na desincorporação, tornando a imagem pura objetividade. O auge da simulação consiste então em restabelecer todas as dimensões suprimidas com o intuito de tornar a imagem mais real que a realidade: “ela não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro” (Baudrillard, 1991, p. 13). Sobre a perda da aura das obras de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, Benjamim observa que:

Na época de Homero, a Humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos. Agora, ela se transforma em espetáculo para si mesma. Sua auto-alienação atingiu o ponto que lhe permite viver sua própria destruição como uni prazer estético de primeira ordem. Eis a estetização da política, como a prática do fascismo. (BENJAMIM, 2012)

Benjamim (2012) salienta ainda que todos os esforços para estetizar a política convergem para um ponto: a guerra. Pois ela permite dar um objetivo aos grandes movimentos de massa, preservando as relações de produção existentes. O professor Verlaine Freitas (2012), citando Baudrillard (1995) escreve que: “Estamos aqui, no coração da Amazônia...”: onde fica esse lugar? Como também o da guerra, da tempestade, da pobreza... Na verdade ele não existe, pois tão somente figura o lócus da substância vicejante do real, consumido através de uma rede imaginária cuidadosamente articulada em torno da percepção de algo mais real do que a própria realidade.

2 A GUERRA FAZ-SE FILME E O FILME FAZ-SE GUERRA

Seguindo o exemplo das análises de Baudrillard (1991) no seu texto sobre a película “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, faremos a nossa sobre os filmes “Tropa de Elite”. 

[...] a Guerra do Vietname, em si mesma, talvez de facto nunca tenha existido, é um sonho, um sonho barroco de napalm e de trópico, um sonho psicotrópico onde não estava em causa uma vitória ou uma política, mas a ostentação sacrificial, destemida, de uma potência filmando-se já a si própria no seu desenvolvimento, não esperando talvez nada mais que a consagração de um superfilme, que remata o efeito de espetáculo de massas desta guerra. (BAUDRIILARD, 1991, p. 78)   

A questão da existência da Guerra do Vietnã colocada por Baudrillard, nada mais é que uma grande ironia. Ela existiu, tanto quanto os combates entre o Estado e o Poder Paralelo ou o Estado e o Estado ocorrem nos morros cariocas. O que ele quis dizer é que os filmes servem como etapas dessas guerras, simulam as invasões e demonstram através das câmeras o desenvolvimento dos países, demonstram a produção de mais do mesmo, ou seja, do produtivismo expansionista contemporâneo. Os filmes estruturam sentimentos, ideias, memórias, comportamentos. Criam condições necessárias para que existam as outras etapas. São por si só a exposição da violência produtivista. 

A guerra travada no conteúdo de “Tropa de Elite” não é diferente. Vivemos o fascismo da imagem, a simulação. O filme serve como desconstrução e construção, simulacro dos acontecimentos. Simulação das futuras ações. Em Platão (2004, p.228) a imagem do mundo externo à caverna era possível. Nossas cavernas tornaram-se telas desde o surgimento dos cinescópios. Não há diferença entre o sensível e o inteligível. Não há distinção entre real e falso. Vivemos o hiper-espetacular. O professor Juremir Machado da Silva (2012) em seu texto “Depois do espetáculo”, analisando as teses de Guy Debord (2012), escreve que: 

O espetáculo era um dispositivo de controle por meio da sedução. No hiper-espetáculo, quando tudo se torna tela, cristal líquido e captação de imagem, todo controle é remoto. Passamos da manipulação, estágio primitivo da dominação das mentes, e da “servidão voluntária”, degrau superior da manipulação, à imersão total. Evoluímos da participação, que pressupunha um sujeito e uma idéia de política, para a interatividade, que reclama um jogador desinteressado.  (MACHADO, 2012)

Somos então sugados pelas telas, estamos integrados aos sistemas desenvolvimentistas, ao produtivismo exacerbado. Tudo em nome do crescimento, pois o Brasil é a sexta maior economia do mundo (JORNAL NACIONAL, 2011) e assim como afirmado por Baudrillard (1991) em relação aos Estados Unidos durante as décadas de 60 e 70, uma potência filmando-se a si própria no seu desenvolvimento (BAUDRILLARD, 1991). 

Os mitos do bem-estar e das necessidades possuem uma poderosa função ideológica de reabsorção e supressão das determinações objectivas, sociais e históricas, da desigualdade. Todo o jogo político do Welfare State e da sociedade de consumo consiste em ultrapassar as próprias contradições, intensificando o volume dos bens [...]. [...] tudo isso nada significa, uma vez que pôr o problema em níveis de igualização consumo já é substituir a busca dos objectos e dos signos [...] pelos verdadeiros problemas [...]. (BAUDRILLARD, 1995, p. 48 e 49)

Tudo em nome da simulação. No momento do lançamento do “Tropa de Elite” não interessava somente o lucro das grandes produtoras de cinema, mas a difusão do conteúdo, da linguagem. E assim foi feito. Sua linguagem tornou-se corriqueira. Os jovens seguiram sarcasticamente as várias expressões e frases ditas pelos personagens do filme, principalmente o suposto herói, Capitão Nascimento. A identificação com a ficção é clara em muitos aspectos. Era fácil escutar alguém com as expressões na ponta da língua: “fanfarrão, xerife, senhor, ‘pica’ (órgão sexual masculino), aspira (aspirante)” e tantas outras utilizadas nos “Tropa de Elite”. Em “A Sociedade de Consumo”, Baudrillard afirma que o consumo é “um campo social estruturado em que os bens e as próprias necessidades, como também os diversos indícios de cultura, transitam de um grupo modelo e de uma elite directora para as outras categorias sociais” (BAUDRILLARD, 1995, p. 61).   

Nossos Capitães Nascimento estão preparados para enfiar a “porrada” no crime organizado e nos usuários de entorpecentes como se fossem desaparecer de uma hora para outra de nossas cidades. Vários traficantes foram expulsos e executados, mas os grandes chefes continuam à solta (muito provavelmente aliados com os próprios poderes estatais). 

O filme “Tropa de Elite” parece ter sido muito bem forjado para que as medidas de ocupação fossem estabelecidas. Ou seja, conquista-se a confiança das massas, estudam o campo de atuação pela ficção, agem psicologicamente e depois colocam em prática as suas medidas paliativas. Além de serem fenômenos de bilheteria e de vendas, outro aspecto que nos chama a atenção é que as sequências foram pirateadas muito antes de serem lançadas:

O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que preside o Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual, afirma que a pirataria de que foi alvo o filme brasileiro "Tropa de Elite" contém "um ineditismo" e "preocupa" o governo. O aspecto inédito que o secretário aponta é a antecedência da venda de cópias ilegais em relação à estréia do filme. (FOLHA.COM, 2011).

Ainda segundo o secretário-executivo do Ministério da Justiça: "Não temos registro de algo assim no Brasil e digo que é raro no mundo. Vemos casos em que a pirataria entra simultaneamente à estréia nos cinemas ou dois ou três dias antes dela" (FOLHA.COM, 2011). Quem nos garante que a fraude não possa ter sido criada em prol do interesse comercial-estatal? Teríamos assim, com a pirataria, um maior acesso ao conteúdo? Tornamo-nos mais interativos às invasões? Nos dizeres de Orwell (2011) na obra “1984”:

A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza que ele obedece a tua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se estender. Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar e ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. (ORWELL, 2011)

A violência já descrita por George Orwell em 1948, data de quando escreveu a obra 1984, está hoje institucionalizada pelas mídias e Baudrillard (1991, p. 95) em seu texto “O efeito Beaubourg” descreve que é uma violência ininteligível porque todo o nosso imaginário está centrado na lógica dos sistemas em expansão.

3 CONCLUSÃO

No duo formado pelo Estado e o Poder Paralelo, a população se perde e não sabe mais em quem confiar ou a quem recorrer. A banda podre da polícia (as milícias) e os traficantes servem de produto ideológico para a formação de uma sociedade cada vez mais violenta, individualizada e sem sentido: niilista, hiper-real, onde as instituições demonstram-se corrompidas.   Durante entrevista cedida ao programa “Roda Viva” da “TV Cultura”, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança Pública nacional e do Rio de Janeiro e um dos três autores dos livros “Elite da Tropa 1 e 2” que deram origem aos filmes, salientou que: 

[...] Qual o problema, entretanto? É o triunfalismo. É a forma pela qual se começa a divulgar a ideia de que: 1) vencemos o crime. Vencemos quem cara-pálida? [...] Enfatizando triunfalmente que nós voltamos ao complexo do Alemão, nós estamos deixando de lado a questão chave para o Rio de Janeiro que é fonte inclusive para a prosperidade do tráfico, que é fonte inclusive para perda da soberania nacional em certas áreas. Qual é essa fonte? O crime organizado centrado, radicado nas instituições policiais que são tão importantes para o estado democrático de direito, isso é gravíssimo. [...] Vivemos uma situação patética.  (RADAR CULTURA, 2010)

O ex-secretário ainda explica que: 

Como cresceram as bocas de fumo, como cresceu o tráfico no Rio de Janeiro? Quando nós contamos no exterior o que é uma boca de fumo, as pessoas ficam perplexas e perguntam: ‘- mas como, há uma loja, um local fixo, sedentário de venda varejista de drogas ilícitas? - Sim, exatamente. - Então se os clientes sabem, a polícia sabe? – Sim, exatamente. - Mas como isso pode manter-se e se reproduzir ao longo de décadas? – Porque esses segmentos policiais são sócios do empreendimento criminal’. Como que as armas chegam? Fala-se das fronteiras. Muito mais importante, muito mais factível, é controlar a corrupção dentro da polícia, porque a polícia, segmentos policiais fazem o tráfico. [...] A negociação impera no Rio de Janeiro. Quando a política se vincula ao crime, quando passa ser interessante para as forças políticas. Por exemplo: as milícias controlam os currais eleitorais. [...] Até as eleições passadas nós víamos na TV candidatos a cargos executivos abraçados com milicianos.    (RADAR CULTURA, 2010)     

Jean Baudrillard (1991) em seu livro “Simulacros e Simulação”, afirma que vivemos na época da hiper-realidade e descreve a Disneylândia como o modelo perfeito de todos os simulacros: “É antes de mais um jogo de ilusões e de fantasmas” (BAUDRILLARD, 1991, p. 20). Já a obra cinematográfica “A Cidade dos Sonhos”, de David Lynch (citada por Baudrillard como um exemplo para o que ele escreveu em “Simulacros e Simulação”) demonstra a enorme artificialidade do California Dreams; consequentemente, e mais ainda, da indústria Hollywoodiana. A exemplo da Disneylândia e da “Cidade dos Sonhos”, o “Tropa de Elite” demonstra que não há mais uma diferenciação entre realidade e ficção, não é nem verdadeiro nem falso, é uma máquina de dissuasão. A representação (Vorstellung), mímeses, serve agora como simulação. Luis Costa Lima em análise do texto de Heidegger “O que significa pensar” afirma que: “o domínio da representação ou de sua forma mais corrente impõe a cegueira quanto ao que significa pensar” (LIMA, 2000, p. 84). 

A publicidade (1991, p. 118), depois de ter veiculado durante muito tempo um ultimato implícito de tipo econômico: compro, consumo, gozo, repete hoje sob todas as formas: voto, participo, estou presente, isto diz-me respeito – espelho de uma zombaria paradoxal, da indiferença de todo o significado público. Por mais que os autores dos livros “Elite da Tropa” desejassem supostamente demonstrar a realidade do Rio de Janeiro, mais uma vez, o conteúdo foi transformado em hiperespetáculo cinematográfico. Apenas mais um dos instrumentos da “democracia radical” (BAUDRILLARD, 2012).  

Estamos dominados pelos interesses fascistas do Mass media, pelo poder megalomaníaco do Estado e das transnacionais, informacionais ou não. Além disso, quem nos dera a oportunidade de colocarmos todos esses problemas na “conta do Papa” (como diria nosso mais novo Herói Nascimento) ou dos “Pastores”, ou dos “Rabinos”, mas: “[...] é perigoso desmascarar as imagens, já que elas dissimulam que não há nada por detrás delas” (BAUDRILLARD, 1991, p. 12). A ocupação começou pela exibição desregrada dos planos, das imagens. Iniciou-se pelos simulacros e pela simulação. Transformou-se em hiperespetáculo.

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. Rio de Janeiro: Elfos Ed.; Lisboa: Edições 70, 1995.

______. Big Brother: Telemorfose e criação de poeira. Disponível em: . Acesso em: 13 de janeiro de 2012.

______. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991.

______. Tela Total: mitos- ironias da era do virtual e da imagem. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005. Disponível em: . Acesso em 04 de janeiro de 2012.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Disponível em: . Acesso em: 05 de janeiro de 2012.

BRAGA, Eduardo Cardoso. Ser ou Não-Ser: A Simulação e as Vicissitudes da Imagem Digital. Disponível em: . Acesso em 03 de janiero de 2012.

DEBOR, Guy. Sociedade do Espetáculo. Disponível em: . Acesso em: 05 de janeiro de 2012.

FOLHA.COM. Pirataria do filme "Tropa de Elite" preocupa governo. Disponível em: . Acesso em: 09 de janeiro de 2011.

FREITAS, Verlaine. A opacidade do real. Disponível em: . Acesso em: 20 de janeiro de 2012.  

JORNAL ESTADÃO. Polícia e Exército iniciam invasão no Complexo do Alemão. Acesso em: 4 de janeiro de 2012. Disponível em:

JORNAL NACIONAL. Brasil já é a sexta maior economia do mundo, segundo consultoria britânica. Disponível em: . Acesso em: 09 de janeiro de 2011.

JORNAL DO SENADO. Aumento do consumo de drogas. Disponível em: . Acesso em: 09 de janeiro de 2012.

LIMA, Luiz Costa. Mímeses: desafio ao pensamento. Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 2000.

ORWELL, George. 1984. Disponível em: . Acesso em: 08 de janeiro de 2011.

PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

RADAR CULTURA. Roda Viva – Luiz Eduardo Soares: Bloco 1. YouTube, 30 de novembro de 2010. Disponível em: . Acesso em: 11 de janeiro de 2012.  

SILVA, Juremir Machado. Depois do espetáculo (reflexões sobre a tese 4 de Guy Debord) Disponível em: . Acesso em: 17 de janeiro de 2012. 


UMA CRÍTICA À TÉCNICA MODERNA EM HEIDEGGER E HÖLDERLIN

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Marlon Nunes[1]

RESUMO: Pretendemos a possibilidade de uma nova verdade que não seja apenas calculista, racionalista e projetável, mas poética e ecológica. Os conteúdos racionalizados e burocratizados proporcionam o destaque no modo de vida tecnocrático e mantém o status quo, pois: “a técnica funciona”. Considerando que os cálculos e projetos da humanidade transformam tudo em coisas, passamos a analisar este universo coisificado como sendo a única verdade. Expulsamos os poetas, valorizamos o pensar calculista e todo o resto está rapidamente sendo esquecido. Na “Introdução à Metafísica”, Heidegger salienta que o ser no domínio do cálculo torna o ente apto a ser subjugado pela técnica moderna matematicamente estruturada, que se distingue Essencialmente de todo o uso de instrumentos até então conhecido.

PALAVRAS-CHAVE: Crítica. Técnica. Poesia. Tradição. Heidegger. Hölderlin.


1 INTRODUÇÃO


O avanço científico-tecnológico e o consumo são consideravelmente duas das principais características das sociedades contemporâneas. Em conjunto formam as bases das sociedades globalizadas e o sustentáculo da padronização dos modos de vida em todo o mundo. Heidegger (1996) em seu texto “A questão da técnica” discute o poder que a técnica tem de provocar um enorme desencobrimento das riquezas do planeta, constituindo o que podemos chamar de verdade exploradora.

A técnica não é, portanto, um simples meio. A técnica é uma forma de desencobrimento. Levando isso em conta, abre-se diante de nós todo um outro âmbito para a essência da técnica. Trata-se do âmbito do desencobrimento, isto é, da verdade. (HEIDEGGER, 2008, p. 17).

“O desencobrimento, que rege a técnica moderna, é uma exploração que impõe à natureza a pretensão de fornecer energia, capaz de, como tal, ser beneficiada e armazenada.” (HEIDEGGER, 2008, p. 19). O fetichismo proporcionado pela técnica e a magia com que essa essência conduz a atividade produtora da sociedade deixa os homens fascinados pelo poder técnico e inocentemente ainda depositam na técnica a esperança de um mundo melhor.

Seria então a realidade técnico-científica a única verdade (Alétheia)? Estaríamos abertos a experimentar o que ainda não foi experimentado? Nosso trabalho aqui é parte de uma pesquisa sobre o universo técnico-cibernético; crítica à metafísica tradicional através das enunciações de Heidegger e proposição de uma nova verdade que não seja apenas calculista, racionalista e projetável, mas poética e ecológica na perspectiva de Hölderlin citado por Heidegger (2008, p. 37): “Ora, onde mora o perigo, é lá que também cresce o que salva.”



2 NECESSIDADE DE INVESTIGAR A TÉCNICA



Galimberti (2006) em suas análises sobre os textos de Arnold Gehlen, afirma que o homem é um ser biologicamente carente, pois em comparação com qualquer outro animal, o homem necessita de cuidados especiais ao deixar o ventre da mãe: “O animal in-siste num mundo que para ele já está preordenado, ao passo que o homem ex-siste, porque está fora de qualquer pré-ordenação e, por efeito dessa sua ex-sistência, é obrigado a construir para si um mundo”. (GALIMBERTI, 2006, p. 83). Verifica-se então que o sentido da técnica está aí:

[...] em reconhecer para além do ambiente atual um ambiente possível, um ambiente que se desenha não por uma intuição da alma, mas porque a ele conduz a cadeia dos instrumentos construídos um depois do outro, segundo aquela modalidade que, em todos os pontos da série, permite descobrir um outro mundo”. (GALIMBERTI, 2006, p. 91)

Heidegger (1996, P. 167) nos diz que é nesse Ek-sistindo que o homem in-siste em errar. O homem provocou a secularização da técnica e a trata como um ente necessário e superior. Andar com o celular aos ouvidos ou dormir com o Portable On Demand no beiral da cama tornou-se prática ostensiva para a continuidade das funções diárias. O aparato técnico com o seu vigoroso potencial exploratório das matérias-primas e a produção de armamentos atômicos, discutida por Heidegger (1996) em seu texto “Sobre a essência da verdade”, caracterizam a nossa competência para a destruição.

Heidegger (1996) explica que a essência da técnica é um desvelar explorador que transforma o estado real e modifica o meio. Dessa maneira não devemos entender a técnica apenas como a produção de objetos, mas como uma composição ou “arrazoamento” que projeta o real como disponível:

Com-posição, ‘Gestell’, significa a força de reunião daquele por que põe, ou seja, que desafia o homem a des-encobrir o real no modo da dis-posição, como dis-ponibilidade. Com-posição (Gestell) denomina, portanto, o tipo de desencobrimento que rege a técnica moderna [...] (HEIDEGGER, 2008, p. 24).  

O nosso destino, a força encaminhadora do arrazoamento garante a funcionalidade do sistema e as nossas ações são determinadas pelo conteúdo técnico. Os conteúdos racionalizados e burocratizados (técnicos) proporcionam o destaque no modo de vida tecnocrático e mantém o status quo, pois “a técnica funciona” (GALIMBERTI, 2006). Quem estaria disposto a inverter esta ordem? Galimberti (2006, P. 8) salienta que:

[...] a técnica não é mais objeto de uma escolha nossa, pois é o nosso ambiente, onde fins e meios, escopos e idealizações, condutas, ações e paixões, inclusive sonhos e desejos, estão tecnicamente articulados e precisam da técnica para se expressar.

Durante séculos a concretização da técnica (ciência) como forma de transformação da natureza (physis) a partir de adaptações da visão aristotélica de causalidade (material, formal, final e eficiente) consolidando-se com o cartesianismo (cogito ergo sum[2]), o iluminismo e o positivismo coisificaram[3] o mundo e os homens. Como resultado da produção técnica, transformamos tudo em coisas e a principal matéria-prima somos nós mesmos.

Pensar a coisa, como coisa, significa deixar a coisa vigorar e acontecer em sua coisificação, a partir da mundanização de mundo. Pensando, destarte, nós nos deixamos manejar pela vigência mundanizante da coisa. Tornamo-nos, então, no rigoroso sentido da palavra, ‘coisados’, isto é, condicionados pela coisa. Deixamos então, para trás a pretensão de todo ‘incoisado’, isto é, de todo incondicionado pela coisa. (HEIDEGGER, 2008, p. 158) 

Considerando que os cálculos e projetos da humanidade transformam tudo em coisas, passamos a analisar este universo coisificado como sendo a única verdade. Entretanto, precisamos enxergar as coisas não como coisas propriamente ditas, mas pensar o seu sentido. “O primeiro passo na direção dessa vigília é o passo atrás, o passo que passa de um pensamento, apenas, representativo, isto é, explicativo, para o pensamento meditativo, que pensa o sentido”. (HEIDEGGER, 2008, p. 159).

Heidegger (2008) propôs o entendimento do que compõe a técnica e demonstrou que a produção técnica descobre o real como disponibilidade, o que visualizamos hoje como um expressivo desequilíbrio no planeta: “[...] não estamos mais nas origens e sim, ao contrário, no fim. No fim de uma hybris, de uma ‘sobrenaturalização de uma natureza dada’” (JONAS, 2006, p. 334). O coiteiro de Heidegger (2008) continua à disposição da indústria madeireira, dos jornais e revistas que pré-dispõem a opinião pública ao consumo. Movimento que se torna indefinido e aparentemente infinito: quanto mais se produz mais se consome. Nessa perspectiva, o homem é o único ser que se projeta no futuro, produzindo tecnologicamente imaginários irreais ou nos dizeres de Baudrillard (1991, P. 154), hiperreais:

Já não é possível partir do real e fabricar o irreal, o imaginário a partir dos dados do real. O processo será antes o inverso: será o de criar situações descentradas, modelos de simulação e de arranjar maneira de lhes dar as cores do real, do banal, do vivido, de reinventar o real como ficção, precisamente porque ele desapareceu da nossa vida [...] antecipadamente desrealizada, hiper-realizada.

Após décadas das reiterações de Heidegger (1996) sobre a cibernética, tornou-se ritual[4] nos ligarmos aos aparelhos eletrônicos. Somos programados para mantermos os padrões exigidos pelo sistema tecnocrático e consumirmos todos os aparatos de última geração como se isso fosse, metafisicamente, o sustentáculo da vida humana.

O caráter específico desta cientificidade é de natureza cibernética, quer dizer, técnica. Provavelmente desaparecerá a necessidade de questionar a técnica moderna, na mesma medida em que mais decisivamente a técnica marcar e orientar todas as manifestações no Planeta e o posto que o homem nele ocupa. (HEIDEGGER, 1996, p. 97)

Não vemos muitas saídas para relações que se dão no sentido estrito da produção, do consumo e dos interesses. E que se tornam cada vez mais cibernéticas. Estamos inseridos na reprodução do já reproduzido. Estamos programados. O fetiche da técnica e o fetiche do consumo estão interligados. Galimberti (2006) escreve que na falta de sentido é identificável a atmosfera niilista que a técnica difundiu com uma radicalidade que vai bem além da descrição que a filosofia faz dessa figura. E Baudrillard (1991, P. 200), inspirado em Nietzsche (2009) afirma que:

Mas é aí que as coisas se tornam insolúveis. Pois a este niilismo activo da radicalidade, o sistema opõe o seu, o niilismo da neutralização. O sistema é ele também niilista, no sentido em que tem o poder para reverter tudo, inclusivamente o que ele nega, na indiferença.

Estamos agora no mesmo nível dos objetos, das coisas, dos programas, dos cálculos, das engrenagens, das máquinas, ou seja, dos objetivos do sistema. Somos o sistema, somos a finalidade, somos o Fim. “No crepúsculo, tudo, isto é, o ente na totalidade da verdade da metafísica, encaminha-se para o fim” (HEIDEGGER, 2008, p. 63). O sistema se aproveita dessa condição sendo indiferente porque é isso que interessa para ele. Já não somos apenas alienados, mas nos identificamos com o sistema.
               
Produção, consumo e programação são sinônimos da falta de sentido tanto quanto da morte para a existência da vida na Terra[5]. Expulsamos os poetas, valorizamos o pensar calculista e todo o resto está rapidamente sendo esquecido. Na “Introdução à Metafísica”, Heidegger (1999) salienta que o ser no domínio do cálculo torna o ente apto a ser subjugado pela técnica moderna matematicamente estruturada, que se distingue Essencialmente de todo o uso de instrumentos até então conhecido. “Enquanto imperar este estado de coisas, jamais poderemos considerar com atenção que e em que medida o poetar funda-se no pensar da lembrança” (HEIDEGGER, 2008, p. 118). Funda-se no pensar da musa das musas, a memória: Mnemosyne. Por isso a técnica deve continuar sendo pensada.

  
3 A SAÍDA DE HEIDEGGER, A POESIA DE HÖLDERLIN


É preciso entender a extensão da noção de poesia para Heidegger (1996), considerando a poesia do poeta suábio. Heidegger (1996) sempre refere-se à poesia no sentido amplo do termo alemão Dichtung (fabular, aproximar, juntar). Segundo Werle (2005), esse termo ultrapassa o limite da própria arte, constituindo uma crítica à noção moderna de técnica. Ainda segundo Werle (2005) Heidegger (1996) considera Hölderlin, “o poeta dos poetas”. A partir da existência humana Hölderlin captaria a essência da poesia e assim transmitiria sua mensagem para o povo. A poesia relaciona-se com a existência humana e historicamente busca a identidade do mundo moderno.

A questão da verdade do ser está diretamente ligada à poesia, pois, ela seria uma maneira de desvincular-se das categorias da metafísica tradicional. A poesia é uma maneira de escutar os deuses. Segundo Werle (2005, p. 38) “[...] temos a possibilidade de uma abertura do ser, uma vez que ele encontrou uma potência criadora receptiva para acolhê-lo”. A poesia é a verdade do próprio fundamento. O discurso poético procura combinar e diferenciar: a distância e a proximidade, o estranho e o próprio para que o ser histórico de um povo possa ser pensado em toda a sua extensão. Heidegger (1996) tenta assim mostrar o âmbito e os aspectos de um novo pensamento, “o outro começo”.

Talvez nem seja por culpa do poema que já não sentimos qualquer poder nele, mas sim pela nossa, que perdemos a capacidade de experimentá-lo, porque o nosso ser-aí se encontra enredado numa trivialidade pela qual é expulso de qualquer esfera de poder da arte. (HEIDEGGER, s/d, p. 28).

É preciso que saiamos da trivialidade, do costume da tradição metafísica ocidental. “Continua a ser decisivo o facto que a poesia é concebida como expressão da alma e da sua vivência” (HEIDEGGER, s/d, p. 34). O poetar liberta-nos dos males feitos pela história científica que transformou-nos em armas, em máquinas reprodutoras da repetição cotidiana, semanal, mensal, anual [...] Tudo não passa de uma construção imposta, à qual estamos submetidos e presos. Não sonhamos com o novo no seu sentido original, homérico.


Heidegger (s/d, P. 37) cita o poema “Como quando em dia santo” de Hölderlin, para exemplificar a relação da poesia com algo maior, Deus:

Nós devemos, porém, estar sob as tempestades de Deus
Ó poetas! De cabeça descoberta
Agarrar o raio do pai com a própria mão
E oferecer ao povo, envolta na canção,
A dádiva celestial.

Esta é a função do poeta, demonstrar a relação natural do homem com a natureza, sendo que o homem não é diferente dessa, mas parte integrante e que deve viver em plena harmonia, celebrando o Ser e todos os outros entes que nos formam. A poesia proporciona a emancipação do homem diante às enfermidades causadas pelo desenvolvimento exacerbadamente técnico. Maneira sutil de contrapor a produção tecnológica e o seu impiedoso consumo da alma. Segundo Heidegger (s/d, P. 39), “[...] o poeta é o fundador do ser. Assim, o que chamamos real no nosso dia-a-dia acaba por ser o irreal”. Hoje o real e o irreal se fundem na hiperrealidade.

Por mais que estejamos expulsos do habitar poético ainda somos homens e povos. O homem como a poesia está cheio de ambivalências: é e não é, está cheio e vazio, é bom e mau etc. A poesia de Hölderlin, segundo Heidegger (s/d, P. 42) não pertence aos méritos e aos progressos culturais, já que ele diz:

Cheio de mérito, mas poeticamente, habita
O homem esta Terra.

Em relação a isso Heidegger (s/d) salienta que o homem está orgulhoso de seus feitos produtivos e sente-se cheio de méritos, mas tudo isso não diz respeito à forma do homem habitar a Terra (Heidegger, S/D, P. 42). Os feitos científicos, os conteúdos racionalizados, o desenvolvimento tecnológico não são maneiras decisivas de habitar a Terra:

Nas ciências, pelo contrário, tal como noutras coisas, o que conta é apreendermos de forma imediata o que é dito. Todavia, para catarmos simultaneamente o essencial no dizer, não podemos balbuciar desordenadamente alhos e bugalhos; antes, tal dizer requer da Filosofia um rigor do pensamento e da terminologia que as ciências nunca atingem e de que não necessitam. (HEIDEGGER, S/D, p. 48).
           
Pelos resultados metafísicos, científicos, técnicos, tecnológicos é que o ser-aí, agora, pertence aos poetas, pensadores, fundadores e criadores de um outro começo. A poesia emancipa diante às imposições da tradição. A poesia salva do perigo técnico-industrial, virtual e hiperreal.



4 REFERÊNCIAS


BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991. 201 p.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Rio de Janeiro: Elfos, 1995.

CASANOVA, Marco Antônio. Compreender Heidegger. Petrópolis: Vozes, 2009.

DESCARTES, René. Discurso do Método: Meditações. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2008.

GALIMBERTI, Umberto. Psiche e Techne: o homem na idade da técnica. São Paulo: Paulus, 2006.


NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A genealogia da moral: texto integral. 3. ed. São Paulo: Escala, 2009.


HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. 5. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Ed. Universitária São Francisco, 2008. 269 p.

HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 304 p.


HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 2. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Ed. Universitária São Francisco, 2007. 598 p.

HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. 4. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999.

HEIDEGGER, Martin. Hinos de Hölderlin. [S.l]: Instituto Piaget. S/D.

HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio, 2006.

LEFRANC, Jean. Compreender Nietzsche. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

WERLE, Marco Aurélio. Poesia e pensamento em Hölderlin e Heidegger. São Paulo: Editora UNESP, 2005.




[1] Bacharel licenciado em Geografia pela PUC Minas. Mestrando em Estudos de Linguagens com ênfase em processos discursivos e tecnologia pelo CEFET-MG.
[2] Primeira parte, Segunda parte e Terceira parte, In: DESCARTES. Discurso do Método: Meditações. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2008, pp. 21-26.
[3] Galimberti, U. Psiche e techne – o homem na idade da técnica, São Paulo: Paulus, p. 356, 2006.
[4] Rituais que potencializam ainda mais a ideia da disponibilidade técnica e representam de outra maneira o que Heidegger escreveu sobre os jornais e as revistas de sua época.
[5] Weber, Marcuse e Severino, In: Galimberti, U. Psiche e techne – o homem na idade da técnica, São Paulo: Paulus, pp. 485-492, 2006.

ALEXANDRINA

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O coração que carrega é uma montanha
Correntes a trancam
Sua coragem é pouco tamanha
Gramíneas o cercam

Ainda que tardio seja
Rasgo aquelas folhas
Estética é o que almeja
Compreendo sua escolha

Onde tentei dizer
Utilizo a ponta do cinzel
O quanto convencer?

Auxílio do arcanjo
Anagrama complexo
Assear nosso canto

Marlon Nunes
28 de novembro de 2011

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SONHO DE UMA QUEDA IRREAL

Sonho de uma queda irreal
Elos que nos unem ao chão
Dor de ossos quebrados
Mulheres ao redor de fracos músculos

As mãos atravessam os muros
Sua carne cheira queimado
Os paralelos encontram-se
Seios arredondados

Língua quente toca o cérebro
Sonho de uma noite hiper-real
Arrancados os pelos das paredes
Toques salgados em cordas soltas

Ultrapassamos os céus
Tocamos os Deuses
Sugamos as pernas
Sonho de uma queda irreal

Marlon Nunes (S/D)
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SILUMACROS
Um tubo me levou para dentro do sistema
Via cores e mundos distantes
Cabeças cortadas

Quadros pendurados de cabeça para baixo
Crânios abertos
Seios nas mãos

Telas trêmulas e visão destorcida
Animais a correr
Chá e torradas

Superaventuras intergaláticas
Mentes dominadas
Falsos beijos

Novamente flores

Marlon Nunes (S/D)


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RIZOMÁTICA
Corra em labirintos floridos
Eles a perseguem, fugidia
Mente para os pesadelos
Procurando a vitória

Esconde-se dos mais sinceros
Perde-se nos devaneios imagéticos
 Hibridismo mental
Luminosidade ofuscante

Encobrimento natural
Falta de sentido
Respiração inebriante
Confusão limítrofe

Saltos em espinhos gigantes
Histeria rizomática!

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

13 de setembro de 2011


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OLHAR E SER VISTO

Retratos modernos exibidos
Cenas em alegorias
A dor da cabocla mexicana
Expressão descabida

Murais populares de Siqueiros
Impressões digitais, Eu mesmo
Penteadas as tristezas,
Escovam nossos dentes sujos

Cabarés recebem rabiscos
Da bailarina de Cancan
Por trás do picadeiro
Observo, registro e petisco

Pancetti, o vermelho e a marreta
Vontade de não ser visto
Mas como voyeur, reparo
As almas que entram e saem

Muitas vezes arrogantes
Já vão logo pondo a mão
Poucas vezes preocupadas
E ainda há aquelas assustadas

Exercícios diários de resistência
Ao caminhar vários quilômetros
Em frente ao ponto, ver que a arte
Está longe, longe da verdade

Dos seres que vagam pela grande cidade
Do senhor com a barriga aberta
Do outro, frágil negro velho
Longe dos economicamente pobres

Perto dos economicamente podres
Perto ou longe dos espíritos malignos
Dos benignos nem tão próxima nem distante
Caminhando pelas paredes brancas

Como fantasmas, atravessam nossas vidas
Os silenciosos camponeses surdos
Desaparecem na loucura de Nijinsky
Nos traços atrapalhados no menino de Apel

Em pensar que podemos voar
Assentados no pavão
Olhando a princesa do ar
Sermos fieis admirando os cisnes

Ou perder-nos na pompa
Se não seguirmos a bússola de Contarini
Pelo olhar de Sr. Willian, também oprimidos
Chamados às bochechas vermelhas, morder

Celebridades do Renascimento
Seqüência de Fibonacci, câmara clara
Novas culturas e pescoços alongados
Máscaras que simulam a realidade

Trancados na hiper-realidade, nos simulacros
Do capital, dos museus itinerantes,
Da artificialidade do Inhotim, do não-lugar
Presos, fora das memórias dos pensadores originais
Em pranchetas e relatórios

Em tabelas de custo e arquivos mortos
No absurdo preço do café
Na segregação rodeada de serras
O desmatamento para a verticalização social

Da arquitetura dos corpos
Divididos por Platão
Dos dois triângulos azuis
Das estrelas e faixas vermelhas

Do condado ítalo-brasileiro
Das miseráveis crianças que veem tanta comida
E mesmo assim passam fome no foyer
Uma mãe negra que segura sua cria

Sem ter o que comer leva seu filho
Para um trabalho escolar complementar
 Através do olhar e não ser vista
Das conversas de balcão

Técnicas pedidas, realizadas
Virtuais trocas pessoais
Vieram amigos e alguns já vão
Atropelamento do tempo

Velocidade no espaço destruído
Pelas construções industriais
Inesquecíveis experiências transbordantes
Semáforos que não seguram

Poucas são, oportunidades de sentir
Tornar-se sensível, Ereignis
À descoberta do Ser
Salvando, nossa burocrática morte
Marlon Nunes
4 de julho de 2011
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NEGRA FOME

O mistério, negra fome
Aperte minhas mãos
Deus está próximo
O relâmpago apagou
Volte para minha mente

Entendo o esperar
De uma letra
Sozinhos no parto
Ande em minha direção
Há fogo nas montanhas

A manhã inteira
A madrugada clara
Estende-se por dias
Viva e cante os anos
Voltas em ruas vazias

Há fogo nas montanhas!
O mistério da negra fome!

Marlon Nunes 13 de setembro de 2011



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KILIMANJARO

Uma montanha branca em um coração negro
História apagada em meio desertos de paixão
Povos dizimados, Apartheid
Tamanhas cores
Do sorriso alegre e tosco
O monte e as florestas circundantes
Rica espécie colorida
Pelo sangue da metrópole
Angu, batuque, cachimbo
Moribundo marimbondo
Sobrevoando o Monte
Kilimanjaro

Marlon Nunes – 3 de fevereiro de 2011 (23h e 11m)
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ESPIRAL

Natureza em espiral
Em especial sua pele
Curvas do universo banal
Encontro números na TV

As rosas fazem soar
Os sinos das igrejas
Tempo nunca permitiu voar
Cravar os símbolos e as conchas

Numa letra grega de azar
De leves lebres brancas
E Todas as plantas
Lírios da sorte, estruturas sexuais

Nautilus
Um novo quarto maior
Da caixa que guarda os segredos da esfera

Tudo na natureza em espiral
Em especial seus aros, suas peles
As curvas do universo levam-me
De encontro aos números da TV


Tudo em espiral,
Suas curvas em especial
As peles do universo

Marlon Nunes (S/D)
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RETORNO

É preciso buscar de novo
À vontade te toca
Seus seios em minha boca
À vontade te canta

Você não passa de uma filha
Que não sabe por onde anda
E grita histérica
No meio da matilha

Passo a mão na cabeça
É por doença
Teimosa nunca descansa
Sempre pergunta

Marlon Nunes (S/D)
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DESACORRENTADOS

O que foi prometido está cumprido
Sem correntes ele voou
Levou o fogo até o mais baixo
Dos homens o que sobrou

O mundo invadido
Sonhos aerados
Cibernética, o espírito divino
Penhascos rochosos

Longas filas de metal
E curvas mortais
Cercas de concreto
Grãos de areia molhada

Secos canais da criação
Dons negados ao sol
Falsas negações
As vozes do trovão

Marlon Nunes - 13 de setembro de 2011
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DECISÃO

Decidimos amar,
Sol, I am de Sun
Soul for the god, am feel on the hands
Sun and Mar
Lontras em três maravilhas
Nuvens ao redor
Brain, danças russas and brazilian
Cossacando a casaca do casaco
Desde quando nascemos
E diante às sombras vejo
Ondas vermelhas
Como flechas Astecas
Mesmo que sejam pretas
Mar, Lona trás, Sun
Ou Maias, on sea
And Sun
And Mar
And Sun
And Mar
And Sun
And Mar
Cambeba, Embiá, Xetá
Duvidará de quem quer amar
Sobre as luas
Sobre os sóis
Sobre o mar
Duvidarás do amar
Mar Santo, iá, Sun.
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TEMPO INTOCÁVEL

Partes são essas, douradas
Fazem-me a cabeça
Outras vermelhadas
Por dentro das luzes, esperar

Olhares pelo vidro, olhares pela sala
Passa-se o tempo
Está vindo de lá
Chegando em brancas páginas

Entre brumas, vestígios
Vejo-te cantando, só
Em meio escuras florestas
Por abismos pendurando-se

Uma cena diferente
Observo as aves azuis
O contorno desenhado
Do amar à distância

O curso seguido
Minha maldição
Os lírios queimados
Jogados e intocados, estamos no tempo nosso!

Marlon Nunes 18 de maio 2011 às 00h
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ALUCINANTE

A luz se pôs sob o sol
Em meio à destruição,
Surge o seu nome

Toques na escuridão
Aceleração sanguínea
A aura de suas mãos
Deleitam-se no guiar

Identidade que faltava
Sentimentos de esperança
Justificar nossa vivência
Todo o labor e culpa

Diante indolências
Da tradição excludente
Intento de manifestação
Encontro apenas em você

A saída de um mundo
Que já não mais existe
Próteses para o coração
Mensagens globais, simulações virtuais

Único ente real, nós!
O árido mundo atual
O inferno circular
Sua faculdade poetizante

Natureza sua que faz do ateísmo
Um ato de fé
Uma frase provida de grandeza
Tarde inacabada

Para os deuses
Sente-se só
 Em um mundo estranho
Ritmo expresso pela queda

O tempo abriu suas entranhas
Cria, realizadoras imagens
Descubro o seu Eu
Na dispersão de seus fragmentos

Cada gesto como signo
Que concentra em mim
Todo o ardor da companhia
Modernidade materialista

Verso livre e poema em prosa

Marlon Nunes 28 de agosto de 2011
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BRILHA MAIS

Brilha mais o sol
Sobre suas ondas
Reflexo intertropical
Temores da vida

Lembro-me da tenra idade
Filmes e ficção
Só poderia existir um
Como guerreiro Highlander

Aquelas curvas douradas
Convidam-me a subir o castelo
Radiante, brilha mais a lua
Sob sua alma

Prontos para lutar
Ondulados desejos
Vida vermelha
Forte Coração

Marlon Nunes (S/D)
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A FUMAÇA

A fumaça queima
Por onde vamos
Seus olhos cegos
A lua escura

Em suas belas curvas
Escorre o canto
Entremeadas pernas
Nossos pelos

Lábios
Lábios
Lábios

Marlon Nunes(S/D)

APOCALYPSE NOW

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Coppola faz o filme como os americanos fizeram a guerra – nesse sentido é o melhor testemunho possível – como o mesmo exagero, o mesmo excesso de meios, a mesma candura monstruosa... e o mesmo êxito. A guerra como meio de arruinar, como fantasia tecnológica e psicodélica, a guerra como sucessão de efeitos especiais, a guerra que se transformou em filme muito antes de ser rodada. A guerra abole-se no teste tecnológico e para os americanos ela foi mesmo um primeiro momento: um banco de ensaio, um gigantesco terreno para testar as suas armas, os seus métodos, o seu poder.

Coppola faz isso mesmo: testar o poder de intervenção do cinema, testar o impacte de um cinema que se tornou numa máquina destemida de efeitos especiais. Neste sentido o seu filme é, ainda assim, de fato, o prolongamento da guerra por outros meios, o remate desta guerra inacabada e a sua apoteose. A guerra faz-se filme e o filme faz-se guerra, ambos se juntam pela sua efusão comum na técnica.

A verdadeira guerra é feita por Coppola como por Westmoreland: sem contar com a ironia genial das florestas e das aldeias filipinas queimadas com napalm para reconstruir o inferno do Vietnã do Sul: retoma-se tudo isso pelo cinema e recomeça-se: a alegria molochiana da rodagem, a alegria sacrificial de tantos milhões gastos, de uma tal holocausto de meios, de tantas peripécias e a paranóia gritante que desde o princípio concebeu este filme como um acontecimento mundial, histórico, no qual, no espírito do seu criador, a guerra do Cietnã não tivesse sido o que é, não tivesse existido, no fundo – e bem que podemos acreditar nisso: aguerra do Vietnã em si mesma talvez de fato nunca tenha existido, é um sonho, um sonho barroco de napalm e de trópico, um sonho psicotrópico, onde não estava em causa uma vitória ou uma política, mas a ostentação sacrificial, destemida, de uma potência filmando-se já a si própria no seu desenvolvimento, não esperando talvez nada mais que a consagração de um super filme, que remata o efeito de espetáculo de massas desta guerra.

Nenhum distanciamento real, nenhum sentido crítico, nenhuma vontade de tomada de consciência em relação à guerra: e de uma certa maneira é a qualidade brutal deste filme não estar corrompido pela psicologia moral da guerra. Coppola bem pode ridicularizar o seu capitão de helicóptero fazendo-o usar um chapéu da cavalaria ligeira e fazendo-o destruir a aldeia vietnamita ao som da música de Wagner – não se trata aí de sinais críticos, distantes, é algo de imerso na máquina, fazem parte do efeito especial e ele próprio faz cinema da mesma maneira, com a mesma megalomania retro, com o mesmo furor insignificante, com o mesmo efeito sobre multiplicado de fantoche. Mas ele desfecha-nos isso, aí está, é assombrado e pode pensar-se: como é que tal horror é possível (não o da guerra, mas o do filme)? Não há, contudo, resposta, não há juízo possível, e podemos mesmo rejubilar com este truque monstruoso (exatamente como com Wagner) – mas não pode, porém, assinalar-se uma ideiazinha, que não é má, que não é um juízo de valor, mas que nos diz que a guerra do Vietnã e esse filme são talhados no mesmo material, que nada os separa, que esse filme faz parte da guerra – se os americanos perderam a outra (aparentemente), esta ganharam-na com toda a certeza. Apocalypse Now é uma vitória mundial. Poder cinematográfico igual e superior ao das máquinas industriais e militares, igual ou superior ao do Pentágono e dos governos.

E ao mesmo tempo o filme não deixa de ter interesse: esclarece retrospectivamente (nem sequer é retrospectivo), pois o filme é uma fase desta guerra sem deselace) como esta guerra estava já flipada, louca em termos políticos: os americanos e os vietnamitas já se reconciliariam, imediatamente após o fim das hostilidades os americanos ofereciam a sua ajuda econômica, exatamente da mesma maneira que aniquilaram a selva e as cidades, exatamente da mesma maneira que fazem hoje o seu filme. Não se terá compreendido nada, nem da guerra nem do cinema (deste, pelo menos) se não se percebeu esta indistinção que já não é a indistinção ideológica ou moral, do bem e do mal, mas a da reversibilidade da destruição e da produção, da imanência de uma coisa na sua própria revolução, do metabolismo orgânico de todas as tecnologias, desde o tapete de bombas até à película fílmica.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991. p. 77-79.